domingo, 31 de março de 2013

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Já não faço esforço para escrever. A minha vida confunde-se com as palavras e estas confundem-se com todos os momentos da minha vida. Se olho para uma casa e a descrevo, o meu corpo sangra como se algo na casa o fizesse sangrar por sofrer de forma incontrolada. Um romance, como o vivo, não tem espaço nem tempo. Todo ele sou eu e as minhas divagações. A roupa que visto, as ideias que tenho, os desejos que alimento não são meus, são do romance, pertencem à escrita. É uma grande felicidade esta maneira de existir. Nunca pensei merecê-la. O ar que me rodeia, o sol, a chuva, as pedras da calçada são palavras sobrepostas plenas de mistério a desvendar que vou registando no papel dos meus dedos. Se toca o telefone é mais uma palavra que me olha e me chama. Se me encontram na rua e me sorriem ou apenas mostram indiferença é uma frase que me visita, me questiona, me desafia. Conheço pouca gente, mas é como se convivesse com o mundo inteiro. As palavras não têm limites, nem se inibem. Brotam constantemente na massa negra que me espera, me acolhe, me convida à reflexão. Sigo as pistas que se me deparam, sem menosprezar uma que seja. Pode sempre acontecer uma novidade à sombra de um instante imprevisto, ou de uma hesitação na caminhada rumo ao porto onde vou depositar as esperanças que herdei, após observar os navios baloiçando nas amarras, sob as marés fustigantes de ventanias contra os focos de luz que rasgam a neblina na sua mansidão.