domingo, 31 de março de 2013

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Lisboa vivia no meio de palavras perdidas e encontradas nas vozes de tanta gente que passava. Palavras cantadas, inquiridas, carentes de resposta. Palavras ligeiras que se desprendiam quando a brisa as arrastava sobre o chão de minúsculos cometas a caminho de um novo espaço sideral. Palavras de muitas cores, feitios, razões, travando-se nos passeios, esquinas, portas de cafés, onde passavam as novidades das horas que aconteciam. Palavras de força e palavras de fraqueza, palavras de amizade e palavras de vingança, palavras de traição e palavras de confiança. Ferviam sílabas por todo o lado, explodiam frases ao deus dará. Ninguém agarrava as palavras, tal a correria em que andavam, a velocidade a que se renovavam, a febre de que se precipitavam. Fugiam nos céus como pássaros de lume em debandada, metiam-se pelas frinchas como baratas esturricando sem norte, acudiam a cantos, bisbilhotavam, conspiravam, semeavam dúvidas, procuravam alimento para os seus motivos e falta deles. Eram interpeladas de surpresa, escorraçadas sem dó. Ameaçadas de morte. Insufladas de vida. Esborratadas. As palavras.