domingo, 31 de março de 2013

45
Quando eu estava só, desligava tudo à minha volta (música, televisão, rádio) e deixava-me afundar nos sons da interioridade. No silêncio da casa, ouvia os meandros da existência, aprofundando o que habitualmente me passava ao lado. Nessas alturas, invadia-me uma espécie de modulação, que se apoderava dos meus dotes e me levava para terrenos desconhecidos.
Eu começava a sentir-me outra pessoa. Tinha crescido, sofrido, aprendido e avançava a partir de então para o que me aproximava de uma outra forma.
Sentava-me, apaziguava, evadia-me de insignificâncias, devotava-me a observar a claridade incidindo sobre os objetos, seres novos, rostos nos seus olhares sem medida.
Por fim, descansava. Sabia que a minha hora não andaria longe. As pessoas mais amigas tinham partido no fim das noites, com os seus sorrisos leves de mudança, incertezas, expectativas.
O caso que me dizia respeito não era diferente. Tinha alcançado os meus propósitos, por mais que me penitenciasse, por mais que tentasse recuperar, ou rever, conceitos, lembranças, conclusões. Eu não perdera tempo. O fecho de contas indicava-o.