domingo, 31 de março de 2013

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Minn vinha de entre as sombras no rumor das casas que o caminho trazia na sua direção. Quase arrastava os pés, todas as noites, à medida que andava, como se não soubesse exatamente para onde se dirigia. Mas não falhava o seu objetivo. Parava a uma porta e batia, com paciência, descansando o corpo pesado contra o umbral. A porta abria-se e Minn desaparecia na sua luz. Tão cedo não voltaríamos a pôr-lhe a vista em cima. Passaria horas a trabalhar sobre matéria de que não nos podia dar contas.
Quando nos voltávamos a reunir, respeitávamos o seu silêncio. Não fazíamos perguntas sobre aquele tempo da sua vida em que se fechava numa casa perto do jardim da Estrela e sobre a qual ninguém possuía qualquer informação. Só se sabia que a casa não dormia. Passava a noite de janelas acesas, podendo adivinhar-se apenas a deslocação de vultos entre divisões.
Certas vezes, quando a noite estava prestes a findar, por volta das quatro ou cinco da madrugada, íamos esperar Minn à saída. Apertávamo-nos nos casacos, enquanto aguardávamos, tiritando de frio, e falávamos para arrancar calor às palavras, ao bafo do seu nexo, ou falta dele. Denz era quem mais se divertia nesses momentos. Ria com tanta esperança que dava a ideia de os seus cabelos em caracóis fazerem vergar as correntes frias que retesavam o ar. Depois, Minn aparecia e nós seguíamos a seu lado, com exaltação, abrigando-nos no halo da sua presença, numa última tentativa de animar as horas que nos restavam.