O que passava de uns para outros era a fome, o desejo, a rotina, os beijos que se trocavam quando a cidade vibrava na sua loucura de fim do dia, onde me esperavas olhando uma montra ou o simples frenesim do trânsito sem formas definidas. O que passava era a ideia, a dúvida, o calor dos olhos, a expectativa, as palavras silenciadas, a mágoa do futuro, o rio no seu vendaval de luzes estendidas para o arco da noite. De ti a mim, entre nós, milhares que éramos, passava a sensibilidade, a correria do sangue, a atração, os músculos, os pressentimentos, o coração desalinhado, o debate, a nudez, o poder invisível, tanto perigo, a exaustão. A noite atravessava-nos em pormenor, ninguém sabia dizer como, cortava-nos em fios leves, sem dor, na sua voz baixa de cidade alheia a regras e limites, delicadamente, pé ante pé, com o gume do seu toque roçando a palavra que me escrevias na respiração…