O frio rachava e eu sentava-me a um canto a escrever. Escrevendo aquecia. Quanto mais escrevia mais aquecia. As mãos tremiam-me sob as correntes gélidas, mas eu não parava de anotar ideias que me surgiam. Se parasse corria o risco de gelar. Eu tinha consciência de que a minha salvação estava na escrita. Por isso não desistia. Mesmo que não acreditassem em mim, eu prosseguia.
As pessoas entretinham-se cantando, dormindo, bebendo, dançando, jogando a isto e àquilo, mas a escrita era quanto me bastava. Era como se as palavras brotassem de uma chama, como se nascessem do âmago de uma fogueira junto à qual eu me protegia das temperaturas baixas.
Tinha pouca roupa e fina, adequada ao Verão, não ao Inverno. Chegara a Lisboa sem saber quase nada, muito menos imaginava o clima que me esperava e não tinha dinheiro para comprar agasalhos. Ninguém fazia ideia do frio que eu passava, fosse quando dormia num vão de escada, fosse quando vinha para casa, a pé, por não ter dinheiro para o autocarro, atravessando a madrugada mal iluminada com as suas flores adormecidas nas varandas, longe de pressentirem as horas que estavam para chegar.