A partir dos onze anos de idade, tornou-se notório que Eid passara a estar cada vez mais tempo comigo. Ia a casa quase só para dormir. A pessoa com quem vivia tinha cada vez menos disponibilidade para acompanhar os passos do seu crescimento. Dirigia empresas, viajava, sociabilizava a todo o instante. Eid, então, foi sobrando para mim. Eu não queria que assim fosse, para que a sua educação pudesse ser equilibrada, mas foi assim que aconteceu. Não tive maneira de o impedir.
Saltava à vista que Eid se dava conta de uma ausência na sua vida em construção, mas faltava-lhe coragem para falar sobre o que sentia. Quando o assunto se impunha, ou vinha simplesmente a propósito, Eid procurava iludir a situação. Comportava-se como se tudo decorresse com normalidade. Era notório que lhe custava engolir a realidade.
Por minha parte, também considerei mais seguro não abordar o caso, para que Eid não crescesse sob a ideia de um desamparo que a passagem dos anos haveria de confirmar. Se não falássemos do que se passava era como se não houvesse razões de queixa. O silêncio, por isso, também sempre me parecera a opção mais prudente. Nem que fosse para que Eid jamais tivesse dúvidas acerca do amor que lhe devotava a pessoa que materializara a sua esperança no mundo.