domingo, 31 de março de 2013

52
De olhos fixos nas imagens que a moldura digital exibia ante a sua face pálida e amorfa, Voss olhava de uma forma ausente, como se não pensasse em nada, como se não quisesse saber de formigas nem percevejos, depois de tantos destroços nas somas da sua vida.
Todos os que haviam partido estavam presentes nas fotos que refletiam a sua visão desprovida de sentimentos. Os abraços, a esperança, os risos, os amores, o envolvimento, as promessas, tudo o que Voss perdera, tudo o que o tempo levara com pormenores de requinte permanecia na retina do quadro eletrónico em que as suas recordações se haviam transformado.
Eram demasiadas coisas, demasiadas existências, demasiadas lembranças. O seu corpo transbordava de tal forma que se tornara incapaz de reagir, bulir, murmurar.
O tempo das lágrimas findara há muito. Agora, só fazia sentido estar em sossego mirando o vazio, sem companhia de ninguém, sem um único movimento de face, observando as imagens que restavam do seu mundo desfalecido.
Quem não morrera, desaparecera. Mudara de lugar, casara, arranjara emprego distante, partira para o estrangeiro, deixara de dar notícias. E Voss esquecera. Tivera de esquecer, de sepultar, a fim de melhor compreender o sentido das palavras que o tempo havia cavado nas suas rugas.