domingo, 31 de março de 2013

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Voss veio do Alentejo para a universidade em Outubro de 1974 e quando deu consigo nas ruas de Lisboa teve dificuldade em compreender os cruzamentos, ligações, lógicas, referências, desafios, que lhe atravessavam a imaginação. Sentiu que cada célula do seu corpo ganhava uma dimensão que nunca experimentara, como se não pudesse resistir às inúmeras solicitações que lhe chegavam.
De repente, viu um fosso atrás de si e à sua frente apenas detonações de ideias. No fosso, tinham sido enterrados negrumes uns sobre os outros, massas informes sem horizonte nem contornos, em contraste com a cintilação das noites plenas de ardor que nasciam a cada minuto nos céus de Lisboa.
O tempo desatou a correr e Voss deixou-se levar no tropel dos passos que contavam histórias aqui e acolá, que observavam movimentos precipitados à direita e à esquerda, que pressentiam ameaças e alegrias sempre maiores. Quando ousava proferir alguma frase, verificava que os termos lhe faltavam, como se quisesse usar palavras cujo significado desconhecia…