segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A conversa com Jez não conduziu a grande resultado. A primeira coisa que me disse foi que não tencionava regressar para casa. Ainda pensei não ter percebido bem as suas palavras, mas a frase foi repetida com firmeza:
- Não volto!
Lembrei-lhe Larj e o estado em que ficaria quando soubesse da sua intenção, mas nem por isso consegui que mudasse de ideias. A sugestão de Jez era que eu não falasse a ninguém do nosso encontro. Se não dissesse nada, Larj não teria qualquer abalo ou desgosto. Para quê incutir-lhe sofrimento?
Senti um aperto no coração com a eventualidade de seguir o conselho de Jez, embora, no fundo, compreendesse a sua atitude e até concordasse com ela. Jez tinha alcançado a liberdade e não pretendia regredir, submeter-se à supervisão da família, depender de horários, estar em casa para as refeições. Era mais aliciante viver com gente amiga, hoje aqui, amanhã acolá.
- Tens ido à escola? – perguntei-lhe.
A sua resposta foi uma gargalhada que se confundiu com os sons estridentes da música que se ouvia no bar e que me demoveu de qualquer tentativa de argumentação.
Jez estava na idade da experiência, da partilha, da aventura, do risco. Essa seria a sua escola por uns bons tempos. A rebeldia acendia-lhe o rosto. Não havia nada a fazer.
O pior era Larj. Como poderia eu ocultar-lhe que estivera com Jez?
Vim para casa a pé, atravessando o frio da noite, para me poder distanciar do momento que acabara de viver. A poucos metros de chegar à porta do prédio, senti que podia adiar a decisão de dizer ou não dizer. Se contasse a Larj ao fim de uma semana ou duas, não estaria a omitir coisa alguma. Precisava de tempo para reflectir.