quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

De roupas ao vento, Jez chegava sempre aos lugares antes de toda a gente porque se esgueirava aos apertos do trânsito em cima da sua motoreta de velocidades indomáveis. Desaparecia de um lado para surgir noutro, como se não chegasse a fazer parte dos sucedidos, como se não chegasse a respirar quando testemunhava o instante do olhar decisivo.
De tanto percorrer acontecimentos, ia conhecendo pessoas aqui e acolá, pessoas que acabavam por lhe acenar, por lhe pedir boleia, por lhe perguntar que novidades trazia ou levava.
Jez respondia, dizia, informava, sem hesitar, conforme sabia, conforme adivinhava, incapaz de medir os efeitos das suas inebriantes viagens.
Passava noites atrás de noites com vertigem, em busca de algo que satisfizesse a curiosidade do seu crescimento. Nem tinha tempo para pensar em Larj ou em Eid. Amava a família, mas o seu amor apenas se materializava nas correrias da distância. Muitas vezes terá passado diante da porta da casa onde vivíamos com o rosto oculto sob o capacete, esquecendo-se de que o seu modo de vida era a nossa preocupação fundamental. E prosseguia a sua obsessão para lá dos semáforos onde a escuridão se perdia.