Mais de trinta anos depois, fui encontrar Minn de cabelos completamente brancos, tão compridos que lhe chegavam quase ao fim das costas. Estava de pé, na cozinha, e arrastava-se de um lado para o outro, enquanto ia falando com ar de lhe ser indiferente se alguém ouvia, ou não, as suas palavras.
Penso que nunca chegou a reconhecer-me. Tentei colocar-lhe uma ou outra pergunta, mas foi o mesmo que eu não tivesse pronunciado qualquer som. A porta da rua da casa onde vivia esteve sempre aberta durante o tempo da minha visita.
Minn falava em vida corpórea e incorpórea, pirâmides invertidas e sobrepostas, elevação e eternidade.
– O corpo não desaparece – dizia, com gestos enfáticos de mãos. – Passa a um estádio de desagregação que é apenas uma forma diferente de partilha e de serviço. Quero lá saber o nome que lhe dão. Sinto-me cada vez mais acima da felicidade. A partir de certa altura, só há felicidade, sempre mais felicidade. Por isso é que tenho a certeza de que depois de morrer o corpo ascende a uma inversão piramidal que o conduz ao infinito de si mesmo. É tão certo e evidente como a matemática. Não vejo outra explicação plausível para o destino da matéria.