terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Desde que deixara de aparecer em casa, Jez só vivia intensamente cada ocasião. Tinha conseguido que lhe emprestassem uma motoreta na qual se deslocava em permanência entre as mais imprevistas zonas de Lisboa, acorrendo aos sítios conforme lhe chegavam novidades. Ameaça aqui, ajuntamento acolá, concentração além, disparos a sul, fugas a norte, nada faltava no sentimento da vida que lhe palpitava nas veias. Por mais sensatos que fossem os conselhos que recebia, considerava sempre que não podia deixar de comparecer nos locais onde se esperava que tudo acontecesse à margem de aviso prévio. Via, assistia, aproximava-se, escutava, não tinha tempo de reflectir, nem de planear ou mudar de ideias. Só lamentava a sua impossibilidade de presenciar a cidade inteira ao mesmo tempo, a sua impossibilidade de ter dez motoretas e vinte pernas para estar em simultâneo onde quase tudo se resumia, se resolvia, no Campo Grande, no Rato, na Alameda, na praça de Londres, na Almirante Reis, no Carmo, no Terreiro do Paço, em S. Bento, no Marquês, no Rossio.