Quando o tempo está mau, sinto as noites de outra forma. Fecho-me, olho, deixo-me cercar, para me proteger de algo cujo domínio me ultrapassa. Não que tenha medo, mas fecho-me para reflectir melhor sobre o que me rodeia. Oiço e aninho-me, para não me levarem, para não virem interferir com o que faço num dado instante. Mas talvez seja mais verdadeiro dizer que me fecho para compreender até onde pode ir a tempestade.
O que procuro discernir é o limite dos acontecimentos. Sejam eles quais forem. Uma simples conversa, o olhar de alguém que se cruza com o meu, ou apenas um desejo recôndito que não me atrevo a enunciar. Atrai-me o limite da conversa, do olhar, do desejo.
Veio isto a propósito do mau tempo, que não chega a ser tempestade. Resume-se a uma chuva persistente. Só que a chuva pode não ter fim. Ou corre o risco de me levar a lugares distantes. Vai caindo mansa e deixa-me a meditar sobre o poder com que atinge as superfícies. Depois, o vento surge sem avisar e torna-se ameaça. Mesmo que não seja muito forte, faz conjecturar acerca da possibilidade de voar uma telha, cair uma árvore, abrir-se uma janela a meio do sono em desespero.
Nada disto tem particular relevância, mas é o que acontece comigo neste momento em que escrevo. Por mais que olhe, por mais que apure o ouvido, pouco ou nada diviso para além da vidraça que me acolhe na sua réstia de claridade definhando. A noite é vaga e despojada no seu infinito, o que necessariamente me inquieta.