sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sur sentava-se nas traseiras da casa, tentando compreender o verde plúmbeo que adivinhava ao fundo das ramagens. Já tinha perguntado o que era aquilo, mas não lhe adiantaram grande coisa. Responderam-lhe de forma sacudida, como se a pergunta não fizesse sentido.
Os seus olhos pouco divisavam por entre as sombras. Já lá ia o tempo em que tal lhe fazia diferença. Agora, bastavam-lhe as recordações, embora muitas delas pesassem mais do que o seu corpo franzino. Quando queria afastá-las, saía de casa e ia almoçar ao seu restaurante favorito, onde o serviço mantinha uma qualidade de décadas. E sempre ouvia algumas vozes que lhe pareciam chegar de outro tempo.
Das duas almas que trouxera ao mundo e por cuja educação fora responsável até atingirem a maioridade, nenhuma se interessava pelo seu estado e pela vida que levava, apesar de ambas viverem a poucas ruas de distância. Sur realçava sempre a normalidade do seu afastamento. E fazia-o de forma tão sistemática, cuidadosa, cirúrgica, que só faltava assistir à sua dor asfixiando em cada sílaba que pronunciava.