Anos depois, no momento em que vinha a sair de um restaurante, dei de caras com Arn. Num primeiro instante, não tive a certeza de ser mesmo Arn, mas quando senti o seu olhar virar-se na minha direcção, todas as dúvidas se me dissiparam. Vi um pensamento que me identificava no fundo das suas pupilas, uma ideia que me atravessava sem remédio, e compreendi que havia um tempo de mim que continuava depositado nas suas mãos.
O olhar de Arn estava despido de qualquer piedade. Condenava-me por um abandono do qual nenhuma culpa me dizia respeito. Pelo menos, que tivesse consciência, ou que me recordasse.
Senti que aquela era a oportunidade que eu tinha de esclarecer parte do passado de uma vez por todas e preparei-me para lhe dirigir palavra e contar o que sucedera na noite em que nos perdêramos de vista, contar a aflição que me abalara, o desespero.
Mas quando lhe barrei o caminho e pronunciei a primeira sílaba de aproximação, Arn contornou-me com ligeireza e esgueirou-se como a matreirice de um peixe por entre o pavor da massa anónima em cujos vagos murmúrios Lisboa se escrevia.