As águas rumavam como se as caravelas fossem partir de novo em busca de terras sobre as quais nada sabiam nem adivinhavam. Do Tejo havia sempre quem largasse amarras na direcção que havia em outro lado, outra dimensão.
Do Tejo, partia-se para se viver longe, ou morria-se ali mesmo na ondulação da barra, como Sur veria acontecer a Ripz, anos mais tarde, sem que tivesse tido a oportunidade de lhe dar a mão num último instante de socorro.
Desde criança, Sur vivia com a sensação de não pertencer a Lisboa, vivia com a estranha e longínqua impressão de ter nascido em outro país, mas não imaginava que nome pudesse ter ou onde pudesse ficar situado. Por isso, os seus passos andavam em permanente deambulação por fronteiras que ninguém antes pisara. Fronteiras perdidas em nevoeiro de lágrimas que derramava, fluxos íntimos, emanações sensíveis do que a sua alma não dizia, para que o silêncio viesse captar a noite no seu dealbar.