sábado, 26 de fevereiro de 2011

O nevoeiro descia sobre as ruas alagando vidraças e piso escorregadio. Sur andava sem noção do que se passava em redor. Não voltaria para casa naquela noite. Queria perder-se nas vielas apertadas que se inclinavam sobre a escuridão para dentro da qual os vultos se esgueiravam em gestos indecifráveis.
Sur viu aquilo e desatou a chorar em convulsão. Não suportava dar de caras com tanta gente a arrastar-se por ali ao deus dará. Tinham passado anos, mas a fotografia parecia ter sido captada no século anterior.
Ninguém diria que era chegado o tempo de todas as franquezas e que não faltava quem acreditasse nas palavras que ouvia, ecoando na noite, cruzando-se no ar e chocando de volta ao ponto de origem, em busca de força para continuar.
Mas nada conseguia parar as lágrimas de Sur, como se a sua verdade insuportável e excessiva tivesse caído no domínio público para dar sentido ao tanto que vibrava, saltava diante dos olhos, na esperança de prolongar um ciclo de paz infernal.
Sur chorou por anos e anos em que não o havia feito. Chorou por si e pelos seus, chorou por quem conhecia e por quem tinha esquecido, por velhos e novos, ricos e pobres, felizes e desgraçados. Tantas foram as suas lágrimas que deixou de as seguir no rio que formavam sobre as pedras do caminho onde o Tejo as veria desaguar.