segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A escrita superou o trabalho, o divertimento, o cinema, o desenho, a música, o teatro, tanta coisa que fui congeminando e que acabei por deixar cair. Com o passar dos anos, desisti de tudo, menos da escrita. Foi a forma que encontrei de me salvar.
Houve quem me dissesse que não o devia fazer, que era demasiado risco, que não tinha hipóteses de chegar onde queria, mas a decisão foi sempre mais forte do que eu, como se alguém a tivesse tomado à revelia da minha vontade.
Não sei, verdadeiramente, como aconteceu. Nada programei. Fui deixando de ouvir música, deixando de ver cinema, deixando de ir a exposições e espectáculos. Quando dei por mim, já só tinha a escrita para me agarrar.
Em minha casa, nada resistiu à humidade. Nem estereofonia, nem rádio, nem televisão. Não consertei, nem substituí. Como praticamente nada sucedia na localidade da minha residência, deixei-me ficar, a escrever, só a escrever.
Certa noite, dei por mim e a escrita tinha tomado uma forma que antes nunca me fora dada a conhecer. Nunca lhe vira aquela expressão, aquela verve, aquele espírito indomável de sílabas contorcendo-se à medida que eu ia dando corpo às palavras.
Não me preocupei. Deixei correr, deixei sair, sem pensar, sem interpretar, sem protestar. Até chegar a este tempo.