Hoje, não sou de ninguém. Nem tenho ninguém. Quero estar só naquela berma da estrada onde os carros passam como se não tivessem destino, embora eu acredite que é outra a verdade e que todos sabem ao que vão. Mas prefiro pensar que não, prefiro imaginar que passam em velocidade para me iludirem, para me darem a ideia de que pretendem apenas dar um sentido à minha presença ali.
Saí de casa e vim subindo a rua, a pé, em direcção à via principal, onde todo o movimento converge para um fim difícil de prever. Fazia um sol frio, que arejava a manhã e me enchia de curiosidade por coisas sem importância. A sombra de um pássaro no asfalto, formigas em carreiro, dejectos de cão, um pneu abandonado enquanto dois cavalos pastavam mansos.