Não seguirei a direito na escrita deste romance, mas também não andarei para trás e para a frente, aos ziguezagues, por entre diálogos, personagens, descrições. Contarei o que aconteceu em Lisboa quando os pombos assistiam dos peitoris das janelas ao festim que as ruas transbordavam nas suas correrias de promessa e medo. Revelarei a cidade em construção sem horas para nada, até que as cabeças tombassem sobre as resmas de papel que tinham servido de mesa à última refeição. Corpos sem agasalhos nem flores, dormindo no chão, encostados aos molhos, para combater o frio que vinha inteiro da vidraça agreste; vozes silenciadas no calor da garganta que protegia contra o perigo; olhos despertos do outro lado onde só havia paredes sebentas que mal deixavam ler frases carcomidas do tempo.
Não me preocuparei com soluções estereotipadas, ideias feitas, métodos consagrados. Escreverei com o bico da caneta que me há-de ferir os dedos sempre que eu bater em cada tecla para tentar acertar no coração da palavra sangrando.