Recordo-me de ter apanhado uma pancada na cabeça e mais nada depois disso. Só branco repentino e um sabor a metal no centro da língua. Não sei que tempo passou.
Quando acordei, dei comigo ao comprido no chão, num espaço frio e ermo, às escuras, sem um som, para além do vago ruído monocórdico e permanente que chegava dos fundos distantes.
Sem saber que pensar, incapaz de organizar as ideias, pus-me à espera, a ver se algo me ajudava a compreender. Não me mexi, com receio de haver por perto algum cão, urso ou mão assassina.
Faltava-me imaginar aquele espaço em que eu caíra sem espécie de suporte.
Ao fim de uma quantidade de tempo, senti que devia tomar a iniciativa e olhei pela primeira vez. A menos de um metro de mim, vi um corpo deitado, enrolado sobre si mesmo, sem dar outros sinais.
Aproximei-me, arrastando-me, aos poucos, e quando lhe toquei senti calor. Era um corpo que respirava. Tive vontade de me aproximar mais, de o abraçar e apertar, de me confundir com os seus trajes sujos e mal cheirosos. Apeteceu-me que aquele fosse mais um corpo entrado na minha vida.