sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Segui religiosamente a cabeleira desalinhada de Minn. Há tempos que não constava que tivesse casa própria, por isso não imaginava o que poderia encontrar. Naquela altura, não lhe conhecia qualquer relacionamento amoroso à sombra do qual pudesse encontrar alojamento. Como andava sistematicamente sem dinheiro, intrigou-me a sua pressão para que me deslocasse aos seus redutos.
Fizemos a pé uma quantidade de quilómetros, sem que eu soubesse para onde nos dirigíamos. Mas, na rotunda do relógio, percebi que seguíamos para o aeroporto, o que me levou a pensar que Minn poderia querer tomar avião para algum destino.
O seu rumo, porém, era mais curto. Limitava-se à zona da carga aeroportuária. Sem perder o nexo da direcção que levava, via-se que Minn não teria dificuldade em chegar a qualquer sítio por ali de olhos fechados.
Atravessámos terrenos ermos, sobre tufos de ervas, restos de lixo, vedações derrubadas, e passámos um portão, iludindo facilmente a vigilância.
Ao fim de vários movimentos furtivos, entrámos num armazém, onde Minn tinha montado o seu recanto. Fizera amizade com alguém da segurança e conseguira que por trás de uns caixotes lhe tolerassem colchão, travesseiro encardido, roupas amontoadas, meias sujas, livros, páginas soltas de jornais.
Minn afastou umas caixas desfeitas de cartão e trouxe entre os dedos um pedaço de papel amarrotado.
– Não vais acreditar no que diz aqui – afirmou, olhando-me de forma solene.