quinta-feira, 10 de março de 2011

A cidade vibrava de imprevistos, mas Jez permanecia na sua circunscrição, sem brechas nem possibilidades de fuga. Tinha a vaga ideia de haver algo que sucedia ali por perto, mas não sabia bem o quê, não tinha forma de compreender. Era como se em seu redor houvesse uma película transparente que lhe impedisse o corpo de estar em contacto com a realidade. Um cenário do qual não fazia parte. Uma espécie de limbo.
Dentro de si remoíam cinzas e a lembrança distante que trouxera os seus olhos até Lisboa.
Nem podia perguntar o que se passava porque ninguém dava pela sua presença. Estava de tal forma incomunicável que só lhe restava esperar que acorressem em sua salvação, à medida que se ia confinando a uma noção vaga de si e das coisas. Contudo, era improvável que avistassem os seus acenos ou escutassem os seus assobios.
Daí a não muito tempo nasceria o sol e Jez não fazia ideia onde se poderia refugiar. A luz que se aproximava ameaçava ofuscar-lhe a visão de forma irremediável.