quarta-feira, 9 de março de 2011

Seguia no metropolitano, de olhos baixos, fixando o vazio do chão, até ao abismo que se abria sob os seus pés. Vestia um casaco grosso, com botões grandes, e cachecol cinzento quadriculado. Pensava no destino que seguia, como se Lisboa chamasse pelo eco que a sua sombra ia deixando nas vagas oscilações da carruagem.
Ante a inclinação da luz àquela hora da noite, havia no seu rosto o brilho carregado de um outro que o antecedera. O perfil era o mesmo. Faltava saber qual dos dois rostos eu observava naquele momento em que o metropolitano acelerava pelo túnel. Talvez observasse ambos, como se um não pudesse existir sem o outro.
Antes de o comboio se imobilizar, notei que se dirigiu para a porta e aguardou. Depois, deixou-se engolir pela multidão. Passaram anos até que eu voltasse a saber o que lhe sucedera.