Eid entrava e saía sem que eu me desse conta de quanto tempo tinha passado desde a última vez que lhe pusera a vista em cima. Conversava comigo enquanto ia fazendo outras coisas e para mim constituía uma espécie de alívio não ter de saber pormenores sobre isto e aquilo. Era um alívio não ter de fazer perguntas, não sentir qualquer responsabilidade.
O seu café era um dos momentos que eu mais apreciava. Nunca se esquecia de mo servir nas noites em que me visitava. Depois de o beber, o sono desaparecia, mas eu preferia passar a noite de olhos abertos. Era uma forma de acompanhar as voltas do mundo. Quando acontecesse, eu estaria alerta.
Eid crescera e com isso eu ganhara a minha independência. A vida, agora, era o que eu imaginava e não necessariamente o que acontecia. Era possível imaginar tanta coisa. Até o inimaginável nos confins da existência. Não via motivos para que assim não fosse. Para que serviria a imaginação se não dispuséssemos de todas as suas potencialidades? Eu imaginava e via o tanto que se encontrava para lá dos limites.
Eid ria-se quando eu lhe contava as minhas visões e dizia acreditar em mim. Eu não tinha a certeza de que assim fosse, mas preferia acatar o que me dizia. Desde criança que eu sempre confiara em Eid e não era agora que ia pôr em causa as suas palavras.