sábado, 12 de março de 2011

Larj contou-me que havia algo dentro de si que não compreendia, que não sabia explicar, que transcendia a sua capacidade.
De início, não tive a certeza de ouvir bem o que dizia, não tive a certeza do que pretendia atingir com as suas palavras, mas a forma como me olhou foi suficiente para afastar quaisquer dúvidas. Vi na dança das suas pupilas que havia alguma coisa encolhida num recanto longínquo do seu corpo.
Larj falou sem receios, parecendo não hesitar sobre a maneira de enfrentar o que guardava dentro de si. Mas como não era capaz de abordar o cerne do problema, pôs-se a dissertar à volta do mesmo. Referiu-se a sinais, pressentimentos, manifestações ligeiras, matérias antigas, assuntos pendentes.
À medida que recebia as suas palavras, eu ia meditando, como quem se distrai com o que ouve, mas sem nunca deixar de seguir todas as vírgulas e compassos do seu discurso.
Não me recordo exactamente dos termos em que a conversa terminou, mas tive a nítida sensação de que se abria um novo caminho à minha frente.