sexta-feira, 8 de abril de 2011

A cidade tremeu durante toda a noite. Não de sismos, mas de correrias, ajuntamentos, precipitações, confluências. Não havia nada a fazer. Não se conseguia impedir o que estava a passar. As pessoas eram convocadas para sítios diferentes, a horas que não faziam sentido, por motivos nem sempre compreensíveis. Mas ninguém desistia daquela nova vida que começava a todos os instantes. Havia gente que se oferecia para tudo. Aquecer sopa, cozer roupa, varrer chão, cantar, fazer cópias de documentos, reunir, conspirar.
Não sei como dizer o espírito que se vivia, para além do odor que palpitava nos espaços sombriamente iluminados. As conversas sobrepunham-se umas às outras, sem direcção. Adivinhava-se o que ocorria em cada pensamento, mas pouco mais. Era como se cada ideia não chegasse às palavras, por precaução. Por um cuidado sem motivo.
Recordo-me do dia em que cheguei a Santa Apolónia. Não tinha dinheiro para o táxi. Fui sempre por ali adiante, sob o frio, contando os reflexos das luzes como estrelas, até à praça do Comércio. Quase morria de susto pelo que me esperava. Mas nem por isso deixei de avançar. Se toda a cidade tremia e trepidava, eu não podia ficar de fora. Nem por nada.