Dres não mudou com a passagem dos anos. Mantém o sorriso fácil, o espírito tolerante, a postura de camaradagem. Fala da sua sorte como de algo naturalmente acontecido, como se nada se lhe tivesse ficado a dever, como se tudo tivesse resultado de uma decisão que lhe antecedeu a vontade.
Gosta da vida nas formas mais simples. Uma jantarada com gente amiga ou um passeio pelo campo continuam a trazer-lhe felicidade. Aguenta muito. Não sei precisamente o quê, porque nunca mo disse, mas aguenta.
Ao fim do dia, anda durante quase uma hora em volta do prédio onde mora, enquanto Als vigia os seus passos de uma das janelas do sexto andar.
Tenho para mim que Dres sempre soube que assim seria. Mas nem por isso alterou uma vírgula da sua maneira de ser.
O quotidiano de Dres limita-se ao perímetro circundante do edifício onde mora. Basta-lhe saber da observação de Als sobre os seus passos para se sentir uma pessoa realizada. E Als contenta-se em avistar Dres passeando em redor da torre, como num movimento de olhar infinito, que lhe transmite toda a segurança de que necessita.