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Escrevo porque muitos desistiram de o fazer. Seguiram o apelo de outros sinais. Apesar de parecerem escrever com as mãos de Deus, preferiram dedicar-se ao desporto, ao ensino, aos negócios, à agricultura, ou simplesmente concluíram que não valia a pena trilhar o destino das palavras.
Deixaram-me, então, esta possibilidade de descobrir novas perspetivas e dimensões através do discurso que o sangue regista.
Abandonaram a escrita e cederam-me os seus dotes, os seus olhares, os seus legítimos anseios. Abriram mão dos seus pertences mais particulares, da sua casa, da sua mesa, dos seus lençóis. Deixaram-me tudo sem nada exigir em troca. E a sua escrita era tão superior ao que eu conseguia articular com as sílabas.
Durante anos, procurei não desiludir, procurei indagar com rigor através do que garatujava.
Sofri por não atingir o que se impunha. Mas continuei para lá do suportável e cheguei, enfim, a esta cidade de fogo em que hoje me revejo.