147
Se eu fotografar um rosto num aeroporto e se, tempos depois, olhar o que fotografei, dificilmente reconhecerei a face que captei. Será tarde para a entender. Terá partido num qualquer avião rumo a algum lugar, escapando-se por uma nesga da realidade que agora ma recusa para a transformar num recorte longínquo, esbatido, ténue.
Por mais nítida que seja a imagem que guardei, não voltarei a confrontar-me com a sensibilidade que me atravessou no instante de premir o botão para fixar um brilho cuja existência foi passageira como a sombra felina que se esquiva no meu quarto em busca de noite.
Não reencontrarei o significado daqueles olhos. Será mais um rosto de ninguém na minha vida. Mais uma ausência perpétua.
Por que captei então a sua foto se sabia que acabaria por nada me dizer? Que me levou a escolher aquele momento de luz final? Que procurava eu numa tal expressão fechada e desconhecida? Que intenção tinha em mira para além do risco que a sua pele traçava na paisagem subindo?