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Vou escrevendo enquanto a morte me leva, como se as palavras fossem células malignas que decidiram devorar-me grão a grão, em cada aperto de mandíbula que se compraz sem reflectir e sem qualquer conceito de piedade. Palavras caninas de dentes aguçados às quais a minha natureza se submete.
Nem se justificaria escrever de outra forma. Para quê fazê-lo fracassando o alcance do que está para além do fim? É na escrita que a morte encontra a sua razão. E é na morte que a escrita descobre o eterno que nos acompanha.
Mas a minha escrita não é coisa que se leia. Vagueio apenas em busca do que nos explica. E nesse vaguear me recomponho, a cada pedaço de mim.
Por que me haveriam de ler se as palavras que garatujo nada acrescentam aos anseios da gente quotidiana? Há mais que fazer e pesquisar. Há mais para viver e conversar.
Só ao longe sei de alguém que procura seguir-me no que vou registando sobre a distância alva. Encontrou esse caminho para estar comigo, para me perscrutar, para me sentir. E é verdade.