124
Como poderei conter-me quando à minha volta doem os rostos que passam? Como poderei recolher-me sob aquela árvore dobrada no vento se não há rasto de estrelas ante os meus olhos? Como poderei alguma vez não chorar pela abundância de notícias que devassam os sonhos do meu tempo? Como poderei sentar-me à mesa com a família no instante em que sei de milhões a morrer sob a música do céu? Como poderei estar aqui a escrever se o fogo e o medo e a vingança me seguem de norte a sul? Como poderei narrar a crueldade das noites que atravessam o mundo dos meus caminhos? Como poderei deitar a cabeça e passar umas horas de sono com o estrépito de balas martirizando os destinos? Como poderei, meu Deus, como poderei viver sem uma nova coerência para o sentido das palavras que dizem tamanha mágoa e tamanha destruição?