domingo, 18 de setembro de 2011

117
Passa a música à minha porta e eu não a vejo, não a posso ver, não consigo vê-la nos sons metálicos com que penetra a sensibilidade das almas.
Vem cadente, cerimoniosa, delicada, como se chegasse de outras eras para me dizer coisas ao ouvido, lembranças, desejos não realizados, promessas esvaídas, conversas que se dissiparam nos anos.
Ainda vou à janela espreitar, rodeando-me de cuidados, para não me detectarem, mas só oiço a música entrando por todas as frinchas da casa onde me abrigo, enchendo a rua, ameaçando deitar abaixo as ideias em que me protegi e que pensei indestronáveis.
Recolho-me e procuro abstrair-me, tento pensar em algo diferente, concentro-me em argumentos que me permitam fugir ao som demolidor que me asfixia. Em vão.
A música avança, no seu passo meticuloso, pausado e seguro, de gume na mão, certa de que cumprirá com rigor a sua tarefa de me abater.