quinta-feira, 22 de setembro de 2011

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Vivo no recolhimento do fogo que há na noite. Vivo sob a sua asa, junto ao seu calor, na sombra dos seus movimentos.
Sinto que desta forma sou mais eu, sinto que ganho segurança, que conquisto vitalidade e ânimo. Não saberia viver em outra casa, nem em outro mundo. Só sou capaz de habitar na noite, na escuridão da noite, na vibração e no imprevisto da noite, quando o silêncio corre na vastidão e pode haver perguntas a qualquer momento.
A noite desce-me nos ossos contando cada gota de sangue e de lágrima. Entro e sento-me onde calha, no primeiro degrau de escada, braço de sofá, parapeito de janela.
Entretenho-me a falar com quem chega, ou com quem dá sinais de estar de partida. Prometo coisas que não cumprirei, transmito ideias que não penso, simulo interesse por matérias que nunca me atraíram.
É o fogo que me resta. Seria menos eu se procedesse de outra maneira. Seria mais cobarde, mais vulnerável, mais atroz.