sexta-feira, 21 de outubro de 2011

108
Certa noite, levantei-me, fui à janela, abri-a e vi um grupo de pessoas em baixo, na rua, amontoadas sob a luz do candeeiro público. Estava alguém caído no chão, de barriga para o ar, olhando o vazio do céu estrelado. Alguém que parecia ter acabado de nascer, ali mesmo, sobre o conforto do empedrado.
O frio entrava pela janela, abraçando-me de forma súbita, desabrida. E foi quando me meti para dentro para fugir à agressão da temperatura que me lembrei de que conhecia aquele olhar penetrante estendido na rua.
Consultei o relógio, vesti-me à pressa e saí porta fora. Avancei para o grupo de curiosos, ajoelhei e pus-me a fazer perguntas, desalmadamente.
As minhas palavras, contudo, era como se não existissem. Não obtinham resposta. Na minha frente estava Vanez, mas Vanez só conseguia devolver-me o susto dos seus olhos.
“Vanez… Vanez…”, chamei, pressionando ligeiramente a mão que se me estendia. “Vem comigo, vem para minha casa, não podes ficar aqui…”.