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De súbito, a lua observada através da janela do carro traz-me a recordação do tempo em que eu via esperança nos rostos, adivinhava boa disposição rodopiando em volta e ouvia comentários agradáveis sobre um filme, uma viagem, a chegada de uma pessoa amiga que vinha de longe para aumentar a alegria.
A cidade trepidava de luz e promessas, alimentando ilusões, devaneios.
Há anos que a revolução tinha acabado, mas toda a gente continuava a ter alguma coisa a dizer, a acrescentar, a propor.
Eu também achava que era importante dar a conhecer as minhas ideias. Preocupava-me com reações e opiniões. Uns diziam que me devia expor mais, outros que devia descer mais fundo em mim. E também havia quem pensasse que eu apenas precisava de viver mais. O "mais" estava sempre lá. Eu precisava de "mais". Faltava-me coração, alastramento de alma, caminhada rio adentro.
Mas o certo é que eu até sentia vertigens quando me confrontava com responsabilidades. Chegava a sentir náuseas. Um dia, fui ao ponto de correr para o lavatório onde vomitei tudo o que sentia. Tal era a dimensão do que eu arrancava do meu íntimo.