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Por que haveria eu de ter um emprego seguro e estável se tudo me parece desadequado e fora do sítio? Que faria eu numa secretária obedecendo a uma chefia? Que números calcularia? Sobre que projetos me debruçaria? Que pensaria quando olhasse para quem estivesse seraficamente a meu lado? Como justificaria o salário que me pagariam no fim do mês? Como poderia aceitar de bom ânimo entrar e sair a mando do relógio? Como aceitaria não ter a possibilidade de dar um berro ou desferir um empurrão numa cadeira? Como seria possível não praguejar e barafustar quando me viessem aborrecer por uma coisa de nada? Poderia eu ter vindo ao mundo para tamanha mansidão? Só se tivesse nascido em outro corpo.
No fundo, vivo para questionar, para perturbar, para agitar. Não sei viver de outra maneira. Começo a escrever e logo as palavras desatam a fazer das suas, logo se atiram a quem passa, logo se misturam e confundem para melhor poderem aplicar o seu poder de fogo.
A culpa vai inteirinha para as palavras. Não fossem elas e eu viveria em completa paz e harmonia. Safadas. As palavras.