quarta-feira, 30 de novembro de 2011

97
Perdi o meu contexto, não sei onde o pus, pensei que o tinha guardado algures, mas não o encontro. Devo ter-me distraído.
Fugiu-me o contexto, escapou-me por entre os dedos, caiu em algum sítio, talvez num buraco.
Não sei que faça agora. Sem contexto não tenho para onde me virar, não vislumbro fio a que me prender.
Nunca pensei que o contexto fosse algo possível de se escapar. Sempre vivi com a ideia de que fazia parte de mim. Mas, afinal, não. Afinal, pode desaparecer e deixar alguém entregue a si mesmo, sem explicação.
Não estou a ver como poderei agora inserir-me em outro contexto. Confesso que me encontro sem norte.
O contexto que eu tinha dava-me jeito. Protegia-me, amparava-me, motivava-me, por mais desanimador que se revelasse, por vezes. Era o meu contexto e valia o que valia.
Olho em volta, deparo-me com os contextos de toda a gente e sinto-me ainda em pior estado, sinto-me como se não tivesse nascido, apesar de estar aqui, de pé, e ocupar o meu espaço. Só o meu. A falta de contexto impede-me de ocupar o lugar de outrem. É um direito que não tenho.
Vivo na margem. No lodo.