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Hoje estou com quem nos acompanha no decurso dos séculos, desde as sombras fundas dos passos, desde as palavras murmuradas que nos fazem chegar, como se não houvera tempo nem distância para contar.
Recordo cada momento de dor e aplauso, cada despedida, cada viagem sem regresso, cada ilusão e descoberta, cada fuga, cada reencontro. E em cada lembrança há o mais de mim que vejo em múltiplas direções, como se eu fora ar e vento e chuva e paisagem viva sem termo.
Batem-me à porta para entregar novas de toda a parte, palavras que contam o que estava por saber, por suspeitar, por pressentir. E há eflúvios de voz enchendo a noite iluminada, melodias de origem desconhecida a transbordar.
Tenho o mundo inteiro diante dos meus olhos. Mundo sem exceção, sem espaço de esquiva nem desculpa.
Em cada reflexo noturno há uma palavra por escrever. Alguém que se esqueceu de a anotar, de a registar. É essa a função que me cabe. Repor o que não foi marcado, o que não foi incluído.