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Com quem conversar sobre o que nos aflige e magoa? Com quem chorar e desabafar? Com quem despejar os fígados da miséria que nos trespassa? Com quem altercar, arengar, protestar sobre o que nos fizemos e nos fizeram? Onde está quem nos ouve, quem nos governa, quem nos consola? A que país pertencemos? Onde um altar que nos acolha e nos redima? Haverá calor esta noite percorrendo os interstícios da casa? Que refeição serviremos quando chegar a hora decisiva?
Envolve-nos o rumor dos anos perseguidos e depressa se alumia a cozinha com vozes e risos. A confusão instala-se e não há quem preste atenção ao que quer que seja.
Peço silêncio dizendo que tenho algo a comunicar, mas a minha iniciativa não obtém efeito. Quanto mais levanto a voz maior é a galhofa, como se antecipassem o ridículo do que me preparo para anunciar.
Perco a noção do que se passa. Olho para as dezenas de rostos que subitamente vagueiam pela casa e constato que nenhum deles é reconhecível. A trepidação é crescente. Pressinto que a noite sairá ferida.