90
Há pessoas que são palavras. No olhar, no pensar, no sugerir. Podem não parecer capazes de acrescentar grande coisa à matéria, mas no seu rosto abundam palavras repletas de existência e de caminhos. Talvez não denotem especial sensibilidade ou noção do íntimo, contudo são gente edificada de palavras na forma de compreender, desafiar, superar. Junto delas, respira-se ar liquefeito, odores, momentos de interrogação.
Acontece com o tempo. Tornam-se palavras numa espécie de milagre. Na forma como colocam a mão, no andamento pouco preocupado em definir um rumo, no silêncio com que antecedem um gesto ou uma resposta.
Acabam por se revelar sílaba a sílaba como uma noite de contas desfiando. Sobrevivem sem se saber com que armas. Galgam mar. Erguem-se. Caem e prosseguem. São infinitas de significados. Como se não desistissem de alcançar a imortalidade.