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Vagueio por entre destroços, enquanto vou encontrando pedacinhos de Gilc, como se tivesse havido uma explosão no recôndito das vidas.
Oiço gemer em cada sombra, em cada ligeiro movimento de cortina, em cada estalido de madeira ecoando na noite vazia.
Vem de lá um silêncio ondulante que ameaça. Parece querer falar-me, mas tenho dificuldade em aceitar a sua aproximação.
Gilc não morreu, ainda que o ar carregado deixe essa ideia.
Aqui uma foto, ali um desenho, uma construção em papel, um telemóvel descarnado, metade de uma régua, um anel, um lápis partido, um globo terrestre fendido, uma chinela desencontrada do seu par.
A presença de Gilc dispersa-se por pequenos fragmentos que me arrasam. Tenho falta dos seus olhos para ver, para comentar, para decidir. Tenho falta do brilho que as suas palavras derramam quando surge para ocupar o tempo com brincadeiras por entre nesgas de visões.
Estava escrito que um tal confronto me cairia em cima. Nem um aparelho de rádio tenho para me salvar destas horas de gelo com a sua ridícula programação musical. A noite lateja na loucura do silêncio até ao fim. Nem um latido, nem um miado. Nem um assobio ou guizo, anunciando a escuridão eterna.