71
Vejo a foto de uma criança sob rebentamentos de bombas e tiros, chorando e arrepelando os cabelos em busca de auxílio. Explosões e gritos misturam-se como numa festa com música de pólvora disparada.
A criança que vejo não é do meu sangue, mas é como se fosse. As lágrimas que lhe saltam dos olhos não diferem muito. O seu clamor corre sozinho em busca de um auxílio que não receberá.
Entre tanta aflição derramada, onde a coragem para acudir? Onde a revolta contra a ignomínia? Onde a indignação pelo crime?
Se fosse alguém do meu sangue a chorar por entre as bombas que oiço na fotografia eu iria com certeza tentar salvar o seu corpo. Então por que não o faço se a criança que vejo tem lágrimas tão cristalinas que é como se corressem nos meus olhos? Por que não me mexo se a sua carne é da mesma natureza que a minha? Que sentido tem esta escrita que não me faz levantar da cadeira para sair em defesa de uma inocência atravessada de balas e medo?