sexta-feira, 20 de abril de 2012

60
(Ao António Soares) Acordo e vejo-me na casa da infância, ouvindo os ruídos doces da cozinha, onde se preparava o que aconteceria. Não sei se havia alguém orientando, pensando, executando. Mas é quase certo que Manre lá estaria. De contrário, não se compreenderia tamanha persistência, rigor, prontidão. Tamanha entrega. Que me invadia o sono e se prolongava.
Na noite seguinte, despertarei na casa de Lisboa, sob o cheiro a tempo seco e obscura claridade inundando as ruas. Virei à janela mirar quem passa como se por uma última vez. E ouvirei o estrondear de um ou outro corpo caindo das alturas enquanto não há quem presencie nem lamente.
Horas depois, será a vez da casa de Blagnac, junto à verdura das flores suspirando no parque. E avançarei na margem das vozes soterradas. Quedar-me-ei junto às folhas dispersas e procurarei um sentido no que antecipo.
Então, em menos de uma semana, voltarei à ilha, onde me hei de rever nas sombras altas que despontam quando a música ensaia a sua dança sob os luares com hora marcada.
Era o tempo de urdirmos apetites na esperança de uma concretização. De nos demorarmos por entre sonhos, pensamentos, divagações. Noite após noite. Aumentando o riso que havia dentro do medo.