domingo, 29 de abril de 2012

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Custava-lhe aceitar que não vivessem na mesma casa. Custar-lhe-ia sempre, por mais anos que passassem. Não via maneira de o peso desaparecer dos muros da sua alma.
Não fora há muito tempo que estivera a presenciar o quarto de Tinne, através da câmara que lhe ia sendo apontada em várias direções, a fim de que tivesse oportunidade de ver os detalhes. A secretária com estante de livros escolares, a cama desfeita com as dobras dos lençóis sobre os quais Nigi se aninhara para fazer companhia a Tinne, o roupeiro com as peças de vestuário dependuradas.
Dirs sentia de forma intensa o fosso que o divórcio cavara entre as suas vidas. Não era um fosso de distância, de afastamento. Era um fosso de diferença, que atribuía a Tinne um espaço ao qual Dirs só tinha acesso por câmara de vídeo. Um fosso de discriminação. Tinne num sítio e Dirs em outro, como se não se pudessem sentar lado a lado no autocarro, no comboio, no barco que atravessava o rio. Apesar de correr o mesmo sangue nas suas veias, a mesma sensibilidade, o mesmo amor. Existiam em margens que não se tocavam. Que o veneno corria nas águas.