Vejo-te partir e partir todas as noites. O tempo não passa e o momento repete-se à exaustão.
De cada vez que olho, fazes a mochila, guardas a roupa cuidadosamente dobrada, arrumas os produtos de higiene, vasculhas um canto onde acomodas o telemóvel, verificas se as meias estão no lugar adequado, calculas o peso das coisas no seu conjunto, corres o fecho da mochila de uma ponta à outra, olhas-me numa interrogação íntima para avaliar o peso da minha alma, dizes uma piada entredentes e sublinhas que nada de especial está a acontecer.
Depois, caminhas para a porta em passos medidos, atravessas o jardim na direção da garagem e desatas a fugir, aos saltos, na tentativa de escapar à perseguição de G., que não esconde o intento de te bloquear a saída.
Vejo-te… e vejo-te sempre, sabendo que o teu caminho é prosseguir para cada vez mais longe do sítio onde me encontro.
E o silêncio transbordando em mim. A dor cortando insistente e funda.
Vejo-te partir a cada instante de todas as noites, essa espécie de grito que me deixa em agonia e morte. Na secura das lágrimas derramadas. Como se a Lua fendesse.