Vou aos lugares e ao fim de poucas horas apetece-me ficar neles para sempre, como se tivesse respirado a sua atmosfera translúcida desde que me conheço. Afeiçoo-me às pedras, às bermas do caminho, às paredes das casas e às suas cores, às lojas, às vedações das obras, aos carros estacionados junto ao mar, ao ruído dos motores que os barcos baloiçam no cais.
Reaprendo a viver em cada lugar como num sonho incoerente que se torna real. Pode ser um lugar esconso, sem história e sem beleza, mas deixo-me prender, não sou capaz de partir, como se aquelas formas sempre ali tivessem estado para me habitar, como se repentinamente eu tivesse criado raízes milenares numa terra que se confunde com os meus odores.
A frescura que vagueia nos ares faz-me sentir que o meu lugar é este e não outro. Que nasci aqui antes de nascer, para encetar o novo tempo de uma contagem que há de prosseguir até ao momento da minha morte.
Não vejo motivos para me entregar a uma nova viagem, embora saiba que, tarde ou cedo, essa oportunidade virá. E competir-me-á seguir o destino rumo a outro lugar, para que as sombras cresçam e venham jazer em mim.