quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Prendiam-no a um banco de madeira, bem seguro em cordas, e enfiavam-lhe na garganta uma faca enorme, afiada e pontiaguda. O animal debatia-se, esperneava, contorcia-se, guinchava com todas as forças da sua alma, mas não tinha maneira de se salvar. Desfalecia pouco a pouco, vazando sangue pelo pescoço, esvaindo-se a cada golfada. O seu sacrifício era acompanhado por comentários, risos, troças de quem assistia.
Após o último suspiro da vítima, ainda havia quem se empenhasse em pressionar-lhe o dorso com os cotovelos para que não se perdesse uma pinga do que havia nas suas veias.
A seguir, queimavam-lhe o corpo com um maçarico e raspavam-lhe o pelo, deixando-o branco e liso como um anjo pronto a levitar. Cortavam-no a meio, num golpe fino e certeiro, e abriam-no, para lhe retirarem os órgãos. Esquartejavam-no. Dependuravam-no numa trave, em exposição perante as crianças que se divertiam a pontapear a sua bexiga lavada e enchida de ar aos saltos pelos corredores e graneis.
Ao ver o animal assim suspenso na trave, já sem me interessar pelos pontapés na bexiga, eu tinha a sensação nítida de a sua alma estar subindo ao céu, até onde os meus olhos conseguiam alcançar rente às estrelas.
Ia a correr dizê-lo a Sent, explicar-lhe a visão que tivera, mas recebia o aviso de que me devia calar, manter segredo sobre o que testemunhara.
Sent tratava de mil e uma tarefas ao mesmo tempo e não tinha disponibilidade para me atender. Creio que preferia acudir a um lado e outro para não ter de pensar. Era a sua forma de esquecer os guinchos.
Com o passar dos anos, os abates sucederam-se. Cresci com essas tantas mortes. Tornaram-se parte da minha natureza. Ainda hoje, muitas vezes, desperto do sono por entre os clamores atrozes de alguém que é preso, esfaqueado, desfeito em pedaços. São sonhos de matança a que não escapo, nem escondendo-me sob os cobertores, nem tapando os ouvidos, nem levantando-me da cama e metendo-me no duche.
Não encontro forma de me livrar. Os guinchos perseguem-me, tomam conta de mim, dão-me cabo da consciência. Que alguém me ajude. A não os ouvir.