quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Eu entrava nas ruas ladeadas por edifícios e tremia como vulneráveis folhas de árvore num vendaval. Tremia da cabeça aos pés, pensando muitas vezes em desistir. Contudo, enquanto pensava, seguia por entre o rebuliço que me acolhia convidando-me a momentos cujas consequências eu estava longe de prever.
E assim o meu pensamento evoluía sem se deter. Evoluía expandindo-se, franqueando espaços, revolvendo escombros de futuro.
Não havia outro caminho para os meus pés. A cidade apontava a Belém, onde eu procuraria abrigo, uma réstia de calor reunido na memória das caravelas sibilantes.
Deus não me esperava em parte alguma. A sua ausência era notória nos rostos, nos passos que levavam indiferença aos seus destinos.
Não valia a pena perguntar. Quem reconheceria a sua mão? Quem se daria à tarefa de investigar o que congeminava?
Mesmo assim, Lisboa seria minha, de uma forma ou de outra. Sê-lo-ia pelo corpo ou pela escrita, pelos olhos ou pela noite, como se houvesse de nascer por cada decisão que eu tomasse.
O meu sentimento prosseguia numa engrenagem que lhe reservara uma lógica, uma necessidade inalienável. Fartei-me de cavalgar meses e anos, cavalguei formas e substâncias sem olhar ao preço de risos e lágrimas, amores e raivas.
Ao fim de muito andar, sentei-me com as pernas escorridas sobre o rio, quando as suas águas fustigavam a travessia. Tinha chegado ao limite que há na sombra de cada palavra não escrita. Recostei-me sobre os braços com as mãos assentes no chão e deixei que o sol trouxesse o afago das despedidas. Chegava tanta luz que dei comigo a rezar sem ter ideia do que dizia. Era mais murmúrio do que reza, pedido de perdão, promessa de emenda, anúncio de um tempo melhor que viria.